No dia 6 de março a Equipe do Projeto Antonia, Rede Oblata Brasil, participa da audiência pública “Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher: ouvindo a sociedade”, promovida pela Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar da Capital/SP.
Na ocasião, o Projeto Antônia realizou a entrega de um manifesto que chama atenção para uma realidade muitas vezes invisibilizada: mulheres em contexto de prostituição também são vítimas de violência e precisam ser consideradas nas políticas públicas de prevenção, proteção e garantia de direitos.

Nosso serviço está localizado no território de Santo Amaro, na cidade de São Paulo, atuando há quase duas décadas no atendimento, acompanhamento e defesa de direitos de mulheres em diferentes contextos de prostituição e em situação de vulnerabilidade social. A partir da escuta cotidiana e da presença nos territórios, acompanhamos trajetórias profundamente marcadas por múltiplas formas de violência, que incluem violências físicas, psicológicas, institucionais, raciais e econômicas.
Nossa experiência evidencia que muitas mulheres que hoje se encontram em contextos de prostituição carregam histórias prévias de violência familiar e doméstica, frequentemente vivenciadas desde a infância ou adolescência. Essas trajetórias são marcadas por abusos, negligências, controle e diferentes formas de violência praticadas no âmbito das relações familiares e afetivas. Trata-se, portanto, não apenas de reconhecer a violência contra a mulher em termos gerais, mas de compreender como a violência doméstica sofrida por mulheres, muitas vezes de forma continuada ao longo da vida, produz rupturas de vínculos, fragiliza redes de proteção e aprofunda processos de vulnerabilidade social.
Nesse contexto, romper com o ciclo da violência doméstica não é um processo simples ou imediato. Muitas mulheres se encontram atravessadas por traumas decorrentes de experiências sucessivas de violência e, ao mesmo tempo, por relações de dependência emocional, afetiva e econômica com homens que, em muitos casos, também são agentes de violência. Essas dinâmicas produzem vínculos complexos e ambivalentes, nos quais afeto, medo, dependência e controle se entrelaçam, tornando o rompimento ainda mais difícil. Por isso, o enfrentamento à violência doméstica exige políticas públicas que considerem essas dimensões subjetivas e estruturais, garantindo acompanhamento continuado, fortalecimento de vínculos protetivos e acesso real às redes de proteção e autonomia .

